Sementes do Mal em Solo sem Vida

Postado em Sementes do Mal em Solo sem Vida em abril 1, 2012 por Vinícius Canhoto

           

 

Tu! hypocrite lecteur! Mon semblable, mon frère! Não viste que abril é o mais cruel dos meses?

Eu, Tirésias, embora cego, vi aquilo que não viste na hora violenta, a hora em que a noite nos arrastava para casa, uma garota branca como a neve do esquecimento ingressava da cidade irreal para ciudad de pobres corazones num trem de subúrbio desaparecida da casa de sua madrasta e do caçador. Bela a vi com seu corpo esquálido, anca esquelética, braços lassos e cabelos molhados a ler o inferno de Dante enquanto a locomotiva se movia e saía da estação Liberdade.

No vagão havia setenta e oito pessoas divididas entre arcanos maiores e menores. Não consegui distinguir todos, apenas discerni o mago do louco, o enamorado do enforcado, a papisa da imperatriz. No entanto, vi que branca de neve estava entre a roda da fortuna e o mundo. Com vagas visões, eu, Tirésias, já pré-sofri aquilo que ainda não havia visto quando embarcaram na estação Igualdade sete gigantes marinheiros fenícios. Esses malditos marujos, como uma impudica matilha, tentaram captá-la com carícias, mas foram repelidos e, decididos e excitados, ataram e capturam-na, arrastando-a para o pavimento do trem e despiram-na, debruçaram-se sobre ela. Esses miseráveis filhos da necessidade! Cães no cio! Fechei os olhos para não ver, mas já era cego, tapei os ouvidos para não ouvir, mas já era surdo, calei minha boca para não gritar, mas já estava mudo como os demais espectadores. As mãos dela não encontraram defesas e a indiferença foi tomada por acolhimento e complacência. Ela era jovem demais! Sua alma exasperada e desesperada, seus entediados e inebriados sentidos. Eu não podia falar e os meus olhos cúmplices velaram-se. Eu não estava vivo nem morto, ainda respirava. Os silêncios eram piores que os estupros.

Na chegada à estação Fraternidade, no chão úmido, o tronco nu ostentava sem pudor o mais completo abandono. O aspecto singular daquela solitude, a meia fina rasgada no joelho escoriado, nos dava uma sensação de melancolia culposa, a de uma orgia lancinante. Um olhar vago e branco, assim como um crepúsculo, escapava de seus olhos pelo vagão de olhares indiferentes e cruéis. Um suspiro vindo de sua boca sangrada e mordida parecia dizer: “Ainda bem que acabou”.

Abriram-se as portas. Nós, compassivos, que vivíamos e morremos naquele momento com um pouco de paciência, saímos calados enquanto os sete marinheiros saíam a cantar velhas cantigas do mar. A garota branca como a neve do esquecimento ergueu-se só, às apalpadelas, e saiu ajeitando a roupa. Ao passar pela faixa amarela da estação, uma sibila ofereceu-lhe uma maçã. A garota aceitou e comeu sem fome, sono ou pecado.

Longe da turba impura, negligente e silente, num banheiro sujo, a bela se limpou das sementes do mal. De repente, voltou-se e olhou-se um momento ao espelho a perguntar: “Espelho, espelho meu. Existe terra mais devastada do que eu?” O espelho nada respondeu, ela sentou-se às margens das águas do vaso sanitário e chorou.

 

O Conto: É antigo. Creio que foi publicado na revista Zunái ou Coyote. Surgiu depois de uma Oficina literária e de algumas leituras do Eliot e Baudelaire.

A Imagem: “Girl eathing Apple” do fotógrafo Alexey Gaev.

9 de Março

Postado em 9 de Março em setembro 18, 2011 por Vinícius Canhoto

 

                                                                                                                     “Well I suppose that you could say that we were playing hard to get. Didn’t understand a thing. But We Could Always Sing”.

(Paul McCartney, Here Today)

 

No meio do caminho que se abre entre a multidão dos olhos molhados, vejo apenas seu brilho em meio à escuridão. Uma estação passa por minha pele, mas não sei qual, porque há um inverno permanente dentro de mim. E o tempo não passa por mais que nos consuma em dias longos, noites curtas, corridos em automóveis e motocicletas que se colidem nos faróis derramados pelas ruas: vermelhos. Pensamentos que morrem em março para nunca alcançar a crueldade de abril. Pouco importa a natureza seja outono ou primavera, equinócio ou solstício, quando te vejo no horizonte e não te alcanço. Um sol que aquece a manhã pouco a pouco não importa depois da noite em que não ouço seu grande bocejo seguido de um “bom dia”. Se eu dissesse que realmente te conhecia bem e (te conhecendo bem) provavelmente viria você rir e dizer que nós éramos de um planeta a parte. Hoje de pé na estrada de um novo mundo do qual você jamais fará parte, apenas te olho deitado e vejo tudo o que se foi e o que não existe mais. E neste momento percebo que estou sozinho por mais que esteja acompanhado. Sozinho e ao mesmo tempo acompanhado no imenso mundo não encontro lugar algum para derramar minhas lágrimas e continuo lembrando como era antes na época em que não precisávamos de grandes espaços. É como fechar os olhos e te ver de novo por detrás das pálpebras sempre com um sorriso e isso de alguma forma me fortalece. Infelizmente não sei se isso é o mesmo para você. O pó, o pólen, a poluição, qualquer coisa que gruda na pele e não me permite lavar a roupa que deixamos para sempre suja. Coisas que não planejamos, coisas que nunca realizamos, nem vamos realizar. Isso tudo parece tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno como as nuvens que formam ovelhas e elefantes. Por que tudo se desfaz? Eu seria feliz por você vir junto e pudesse dividir comigo a dor e alegria de esperar as próximas flores brotarem. De agora em diante desejo te ter sorrindo ao meu lado para sempre em minha memória. Se eu fechar os olhos vou ver você novamente por detrás das minhas pálpebras e não sei se isso me fortalece ou enfraquece quando abrir os olhos e não te ver diante deles. Infelizmente não sei se será o mesmo para você por não estar aqui hoje, porque partiu e deixou uma série de perguntas sem respostas.

 

o Conto: Auto-explicativo, uma releitura do Remioromen.

a Imagem: Uma rua destruída. Título de uma pintura feita por um sobrevivente da bomba atômica de Hiroshima, Tsutomu Kojiri: http://www.dementia.pt/bomba-atomica-arte-de-sobreviventes/

O Cristo de Nagasaki

Postado em O Cristo de Nagasaki em junho 18, 2011 por Vinícius Canhoto

Na rua dos beijos sem amor vivia Aínoko, prostituta cristã de quinze anos que recebia pagãos e pecadores à noite para sua sobrevivência e de seu pai inválido; na manhã seguinte pedia perdão aos pés do Cristo pregado na cruz de latão na parede de seu quarto.

Das meretrizes de Nagasaki, era das mais comuns, embora seus olhos parecessem duas gotas de chá, seus cabelos fossem escuros e sua pele clara. A meiguice se desenhava em sua face que ria e fazia rir os freqüentadores de seu quarto e corpo. Quando algum pródigo deixava uma ou duas moedas a mais, ela pagava um cálice de bebida para o prazer de seu pai. Quando algum pragmático perguntava a respeito da cruz, ela confirmava sua fé cristã e dizia que, apesar da profissão, Deus a compreenderia e a receberia no céu.

No entanto, veio a sífilis. De quarentena, ela tomou chás de raízes e ervas para atenuar a febre, fumou ópio para aliviar a dor e deixou de atender para não contagiar ninguém com o mal-dos-cristãos. Embora se guardasse e repousasse, a doença parecia não ceder. Certa vez, Kinoduko, famosa puta pitonisa, condoeu-se diante do estado da menina recomendou a ela um místico sanativo. Aínoko havia contraído a doença de um freguês; só se curaria se a passasse para outro.

Assim que Kinoduko saiu, Aínoko ajoelhou-se perante a cruz e rezou: “Cristo Senhor que estais no céu. Para sustentar meu pai e a mim, pratico um comércio vergonhoso. Entretanto, sujo apenas a mim mesma, não prejudico ninguém. Por isso, pensava que mesmo morrendo neste estado, poderia ir para o céu. Todavia, se não transmitir esta doença a um freguês, não poderei continuar a exercer esta profissão. Mesmo que morra de fome, me esforçarei para não dormir com ninguém. Caso contrário, causarei a desgraça a um desconhecido, de quem não tenho ódio nem rancor. Eu não passo de uma mulher que não tem ninguém em quem se arrimar, senão Vós!”

Com o tempo e as marcas sifilíticas, Aínoko, por nenhuma insistência, era convencida a deitar-se com quem quer que seja. Seu quarto foi esquecido até a noite em que lá entrou um estrangeiro de rosto queimado de sol, tatuagem no braço, dourado no dente, cabelos compridos, barba ruiva, olhos azuis e cheirando a mar. Embora resmungasse como um bárbaro, suas feições não revelavam um homem nem do Ocidente nem do Oriente.

Aínoko, assustada, disse-lhe: “Não recebo mais ninguém aqui porque sou portadora de terrível enfermidade. Se chegar perto passará ao senhor”.

Sacudindo a cabeça, o homem demonstrou que não sabia japonês. Uma vaga sensação de intimidade dava a ela a impressão de já o conhecer de algum lugar. Por instantes, Aínoko percorreu a cidade em pensamento tentando se recordar de onde o teria visto. Percorreu o parque, o porto, o bairro holandês, foi e voltou ao bairro proibido. Não encontrou nas reminiscências nenhum estrangeiro à imagem do homem diante de si.

O forasteiro, ao contemplá-la, ofereceu, por meio do sinal do dedo indicador e médio, dois dólares. Ela não quis. Então adicionou o dedo anular para oferecer três dólares. Ela não aceitou. O dedo mínimo foi somado aos outros três para ofertar quatro dólares. Ela rejeitou. O polegar confirmou cinco dólares de oferta. Ela repeliu. Os dedos do estrangeiro continuaram a se erguer até que as mãos ao se moverem espalmadas dessem a entender que eram vinte dólares. Ainda sim, ela recusou. O bater irritado dos pés do visitante fez o quarto tremer de tal forma que a cruz pendurada na parede caiu.

Ela correu para a cruz caída, apanhou-a e ao contemplá-la reconheceu aquele estranho. Apertou a cruz contra o peito e lançou um olhar de espanto para os olhos daquele homem que pareciam vaguear incessantemente sobre seu corpo. Ele se aproximou e sussurrou ao pé do ouvido dela que se deixou enfeitiçar pelas palavras incompreensíveis proferidas por aquela boca ébria de éter. Deixou-se envolver, esquecendo a enfermidade. Como se a embriaguez dele inebriasse seus sentidos, descuidou de sua resolução, deixou-se despir, negligenciando toda a existência.

Quando Aínoko despertou, já era dia. Levantou-se devagar. De repente, lembrou-se da noite anterior. O quarto ainda cheirava a álcool e mar, mas não havia nenhum vestígio da passagem do tal forasteiro. A mobília arrastada e desalinhada pelo cambaio bêbado estava de volta ao seu lugar. Única peça fora de lugar era a cruz jogada a um canto. Aínoko abriu a janela e foi recolocá-la na parede. Assim que pôs a cruz, viu no espelho, logo abaixo, que não havia mais marcas na pele. Estava curada.

A certeza de que Cristo viera visitá-la na noite anterior a emocionou. Seu coração e seu semblante se encheram de alegria ao sentir que o Redentor por seu quarto passou, levou a sífilis consigo e foi-se sem deixar indícios. Com o olhar envolto em lágrimas, ajoelhou-se e rezou recordando-se dos dedos do Senhor na noite passada; e, para cada dedo, ofereceu uma oração.

Agosto de 1945

Postado em Agosto de 1945 em abril 29, 2011 por Vinícius Canhoto

            Mary Poppins abriu o guarda-chuva para voar, mas não voou. Um flash desmanchou em chamas o pano do domo planador que, além de não planar, não a protegeu da chuva-negra caída de um céu sobrevoado por Enola Gay. Os cavalos do carrossel corriam enlouquecidos nas ruas, as tartarugas não vieram do fundo do rio do palácio do monarca dragão à superfície coberta de pessoas sedentas e mortas. Mary Poppins abriu apenas o guarda-chuva e não uma caixinha de nome Little Boy que a transformou numa estátua de carvão que se decompôs em pó como cinzas de incenso.

            Peter Pan ganhou de sua mãe uma agulha de costura para se proteger do medo ao invés de uma espada para o harakiri. Era um kamikaze incapaz de ir a luta, mas já tomara o saquê imperial que antecede o último vôo à terra do nunca. Peter Pan mandou uma carta de adeus, de gente grande, e voou para a garganta profunda da morte querendo naufragar os piratas, acompanhado de outros garotos perdidos com explosivos nos corpos e agulhas nas mãos.

            Cinderela esfumou-se do desencanto numa rajada de luz. Era a meia-noite do século. Desapareceu como neve na primavera, não deixou vestígios de seu quimono de seda bordado com fios de ouro e prata, nem a faixa de pérola que lhe envolvia a cintura, tampouco suas sapatilhas encantadas. A carruagem de abóbora tornou-se uma lanterna vermelha em que o cocheiro, carbonizado, esperava levá-la ao baile para dançar com o filho do imperador. Cinderela evaporou deixando apenas as marcas de suas pegadas.

            Pollyanna procurou ver o lado bom de tudo, embora, devido à catarata, enxergasse cada vez menos depois que viu o clarão. Tentou sorrir quando lhe sangravam as gengivas, olhar a cara desfigurada no espelho e pentear-se enquanto seus cabelos caíam, não chorar cada vez que lhe saía cacos de vidros da pele, não delirar no momento em que tinha alucinações brancas com pássaros e cisnes. Ela tentou ganhar no jogo do contente, mas já começou derrotada logo que dobrou o primeiro grou de papel. Pollyanna acreditou conseguir dobrar mil para atingir a longevidade e vencer a leucemia; fez novecentos origamis e perdeu a vida cem esperanças.

Polaroid da Loucura Imaginária

Postado em Polaroid da Loucura Imaginária em fevereiro 6, 2011 por Vinícius Canhoto

Bebíamos o sangue de Baco com sua sede de sacrifício. Estávamos num bar longe de Buenos Aires ou Berlim. Era um sábado de carnaval sem fantasia. Curupira fumava a boca de Maria Juana e ria alto, enquanto Bukowsky bebia em silêncio a súcia líquida de Éros. Estavam na mesa do meu lado esquerdo Maria, a louca, que ainda tomava prozac e eletro-choques, do lado direito Nero que ainda conspirava e respirava ares de soberba. Os dois bebiam comigo a melancolia, a angústia, a felonia e a solidão. Eu era um animal domesticado em solo selvagem saindo a sangrar e beber de volta tudo aquilo que minha carne havia derramado pela cidade dos prazeres. Quando uma guerra intestina matava minhas sete vidas em mim, cantei a paz de Páez e cheirei a bruma na cor âmbar violeta. Vomitei rum nas ruas e nas paredes dos mercados. Saí do bar nos braços de meus amigos de copo e fé sem tomar mais nenhum trago de piedade, apenas mais um copo de cólera com gotas de dor e café. Andava pelas travessas e alamedas de Sodoma e Gomorra com Maria, a louca, do lado esquerdo a me proibir de tomar lexotan e a sugerir um sorvete, enquanto do lado direito Nero trazia cervejas e cigarros. Minha vida já não era mais minha, já não me pertencia, porém eu dizia que estava OK e pensava que aquele amor, afinal de contas, não era de verdade e que as canções de amor mentem tanto. Caminhávamos e cuspíamos nas esquinas e nas vitrines vivas, naquilo que enjoava e enojava. Éramos incapazes de curar as feridas da cidade, estávamos longe de casa e em nossas mentes vazias o diabo fazia oficina literária. Falávamos sem parar, falávamos em suicídio, anti-depressivos, irmãos Karamazov e rock and roll. Comíamos a merda do Mc Donald’s. Nero acreditava, como um dogma, in veritas vino enquanto Maria, a louca, acreditava nos aforismos de Jack Daniel’s e me dava maus conselhos. Eu pensava no corpo com espinhas da imperatriz de Napoleão sendo comido e beijado por Judas ou Calígula e chorava lágrimas de coca-cola cantando para mim mesmo que foi amor. A garganta já estava seca quando paramos noutro bar e encontramos Oscar Wilde na entrada do banheiro tomando coquetel de AZT. Mijamos os três em pé e dentre Nero, Maria, a louca, e eu, Wilde preferiu a mim. Ele veio oferecer-me uma camisa-de-vênus e a leitura de profundis de seus anais poéticos. Recusei com veemência e ele nunca mais me perdoou por isso. Voltei a beber no balcão até cair. Ao cair, ainda vi Maria, a louca, sorrir pra mim e dançar até que o whisky e o fastio fizessem efeito e, por asco ou aborrecimento, depois de dizer que me odiava, abrir os pulsos com uma gilete. Sangrou, sangrou, sangrou e riu como uma louca. Fechei os olhos, minha cabeça girava como moscas ao redor da merda, não vi nada mais. Acordei de ressaca na cama de um hospital, do meu lado esquerdo Wilde, do lado direito Nero. Perguntei por Maria, a louca. O pior já havia passado. Saímos do hospital. A cidade ainda cheirava a vômito e álcool. Sugeri a Nero que queimássemos a cidade para a quarta-feira ter o cheiro de cinzas. Nero riscou um fósforo e o atirou numa poça de urina. Wilde ria. A cidade se incendiava e ardia.

No dia seguinte, acordei em casa com o telefone. Atendi. Era Hades que me dizia: “Hei! Passei ontem em sua casa para te visitar, mas tu não estavas”.

 

O Conto: esta história sofreu várias metarmofoses. Primeiro surgiu como um conto do Bukowsky, depois virou música do Fito Páez para, por fim, voltar ao seu estado original em minhas mãos.

A Imagem: foto da exposição Verso/Reverso do fotógrafo Clício Barroso, 2010.

 

Balé de Borboleta

Postado em Balé de Borboletas em dezembro 24, 2010 por Vinícius Canhoto

Francisco não quis ser o patrão nosso de cada dia. Não quis ajudar o pai mercador, salvar a mãe megera, o irmão mercenário. Não quis ficar aqui em Assis. Não quis ser tecelão, quis ser como os lírios do campo que não trabalham nem fiam. Não quis o negócio dos mercadores, quis o ócio das aves que não semeiam nem segam, não ajuntam em celeiros. Não quis fortuna, o deserdado. Não quis a eqüidade dos bares, o cárcere e as disputas pelo poder da cidade, o domínio da arte do comércio, o nome de Bernardone. Não quis as noites nos jardins da casa de Clara a vê-la ir e voltar à janela como a andorinha vai e vem no verão até a mão humana interromper o protagonista e o ato. Não quis a seda e o linho de patrício do patriarca, preferiu a nudez coberta por um tecido rústico. Não quis construir anjos ou catedrais. Não quis ser gentil-homem, quis ser homem gentil, servir a ser servido. Não quis os mosteiros, quis o campo. Não quis ser sacerdote, quis ser peregrino. Não quis Roma, quis romaria. Não quis o vinho, quis a água. Não quis carregar nem ouro, nem prata na cintura, nem sacola, nem duas túnicas, nem sandálias ou cajado. Não quis um teto por não temer o trovão e a chuva, quis as estrelas. Quis conhecer o vento e o sol e andar pela mão das estações. Quis os passos e os pombos. Quis viver atrás da brisa, assobiando. Quis ouvir o canto de passarinho. Quis conversar com as flores e com os peixes. Quis escutar a água chover debaixo da terra. Quis ler a vida nas folhas caídas das árvores. Quis acreditar em Deus como nas flores, nos montes e no luar. Quis equilibrar seus pés sujos e descalços na ponta quente da pedra para bailar seu balé de borboleta na prece de louva-deus. Quis comungar uma comuna com seus pobres irmãos. Quis redigir regras para seus seguidores, mas essas foram burladas pela bula papal. Quis manter o voto de pobreza, o Poverello. Quis curar suas doenças, descauterizar seu olho, mas não impediu que o ferissem e fizessem estigmas-de-cristo depois de morto e construíssem uma suntuosa Sé sobre seu túmulo para que tudo não terminasse em farsa.

Francisco de Assis nunca quis ser santo.

Os Sofrimentos do Jovem Wilhelm

Postado em Os Sofrimentos do jovem Wilhelm em outubro 10, 2010 por Vinícius Canhoto

30 de maio

 

Caro Werther, inquieta-me o coração receber tuas aflições por meio das cartas que chegam às minhas mãos, cada vez mais trêmulas, a cada chegada do carteiro. Sofro por ti, por mim, por nós ao ler nas tuas palavras que a cada dia morres mais um pouco. No entanto, por mais que me fales em tirar-te a própria vida, é justamente a vida que te tiras dela.

Meu amigo, embora os livros de História digam que a Idade dos Metais ficou na pré-História, te digo que ainda estamos na pré-História e que a Idade dos Metais ainda segue. Vivemos a Idade do Ouro de Tolo, ou melhor, a Idade do Ouro dos Tolos e, por isso, artistas em nosso convívio perecem. Nesta Idade, na nossa idade, os sonhos logo se vão.

Vejo-te sonhando, despertando, nascendo, morrendo e ressuscitando, mas não sei até quando.

Amo-te mais por saber que estás amando, que aprendeste a amar, que descobriste o maior drama dos nossos dias: o amor; e que descobriste, também, o mal do nosso século: a solidão.

Teus sofrimentos, tuas angústias, teus anseios, teus desejos, teus ideais, tua Carlota, provam-me tua face humana entre a desumanidade da humanidade.

Perdoe-me a liberdade de dizer “tua” Carlota ainda que esta não te pertença. Todavia, pertencerá alguém a alguém? Estou pendente a crer, como tu, que ninguém é de ninguém. E, de vez em quando, encontro-me dizendo que pertenço tão pouco a mim mesmo.

Sinto que estás a meio passo: a meio passo do começo ou a meio passo do fim. Mas não é disso que se trata o amor? E a vida? Este espetáculo hediondo em que há circo, mas falta pão. Sinto que tu queres tirar a vida que a vida tiras de ti.

Como teu amigo, meu amigo, não me cabe julgar tuas atitudes, apenas buscar compreender tuas razões (embora cada vez mais não encontre razões no amor) para quando estiveres caminhando não caminhes sozinho, para quando estiveres caminhando não caminhes em silêncio; porque teu caminho é tua solidão; porque teu caminho é tua salvação; porque teu caminho é o que te manténs vivo; e apenas cabe-me estar ao teu lado.

Em Weimar o final de tarde de outono deve ser tão belo e triste quanto o daqui.

 

O Conto: este foi meu primeiro texto publicado. Saiu na revista Cult de abril de 2004.

A Imagem: Werther e Charlote Buff de Bondezan

 

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