Tu! hypocrite lecteur! Mon semblable, mon frère! Não viste que abril é o mais cruel dos meses?
Eu, Tirésias, embora cego, vi aquilo que não viste na hora violenta, a hora em que a noite nos arrastava para casa, uma garota branca como a neve do esquecimento ingressava da cidade irreal para ciudad de pobres corazones num trem de subúrbio desaparecida da casa de sua madrasta e do caçador. Bela a vi com seu corpo esquálido, anca esquelética, braços lassos e cabelos molhados a ler o inferno de Dante enquanto a locomotiva se movia e saía da estação Liberdade.
No vagão havia setenta e oito pessoas divididas entre arcanos maiores e menores. Não consegui distinguir todos, apenas discerni o mago do louco, o enamorado do enforcado, a papisa da imperatriz. No entanto, vi que branca de neve estava entre a roda da fortuna e o mundo. Com vagas visões, eu, Tirésias, já pré-sofri aquilo que ainda não havia visto quando embarcaram na estação Igualdade sete gigantes marinheiros fenícios. Esses malditos marujos, como uma impudica matilha, tentaram captá-la com carícias, mas foram repelidos e, decididos e excitados, ataram e capturam-na, arrastando-a para o pavimento do trem e despiram-na, debruçaram-se sobre ela. Esses miseráveis filhos da necessidade! Cães no cio! Fechei os olhos para não ver, mas já era cego, tapei os ouvidos para não ouvir, mas já era surdo, calei minha boca para não gritar, mas já estava mudo como os demais espectadores. As mãos dela não encontraram defesas e a indiferença foi tomada por acolhimento e complacência. Ela era jovem demais! Sua alma exasperada e desesperada, seus entediados e inebriados sentidos. Eu não podia falar e os meus olhos cúmplices velaram-se. Eu não estava vivo nem morto, ainda respirava. Os silêncios eram piores que os estupros.
Na chegada à estação Fraternidade, no chão úmido, o tronco nu ostentava sem pudor o mais completo abandono. O aspecto singular daquela solitude, a meia fina rasgada no joelho escoriado, nos dava uma sensação de melancolia culposa, a de uma orgia lancinante. Um olhar vago e branco, assim como um crepúsculo, escapava de seus olhos pelo vagão de olhares indiferentes e cruéis. Um suspiro vindo de sua boca sangrada e mordida parecia dizer: “Ainda bem que acabou”.
Abriram-se as portas. Nós, compassivos, que vivíamos e morremos naquele momento com um pouco de paciência, saímos calados enquanto os sete marinheiros saíam a cantar velhas cantigas do mar. A garota branca como a neve do esquecimento ergueu-se só, às apalpadelas, e saiu ajeitando a roupa. Ao passar pela faixa amarela da estação, uma sibila ofereceu-lhe uma maçã. A garota aceitou e comeu sem fome, sono ou pecado.
Longe da turba impura, negligente e silente, num banheiro sujo, a bela se limpou das sementes do mal. De repente, voltou-se e olhou-se um momento ao espelho a perguntar: “Espelho, espelho meu. Existe terra mais devastada do que eu?” O espelho nada respondeu, ela sentou-se às margens das águas do vaso sanitário e chorou.
O Conto: É antigo. Creio que foi publicado na revista Zunái ou Coyote. Surgiu depois de uma Oficina literária e de algumas leituras do Eliot e Baudelaire.
A Imagem: “Girl eathing Apple” do fotógrafo Alexey Gaev.






