9 de Março
“Well I suppose that you could say that we were playing hard to get. Didn’t understand a thing. But We Could Always Sing”.
(Paul McCartney, Here Today)
No meio do caminho que se abre entre a multidão dos olhos molhados, vejo apenas seu brilho em meio à escuridão. Uma estação passa por minha pele, mas não sei qual, porque há um inverno permanente dentro de mim. E o tempo não passa por mais que nos consuma em dias longos, noites curtas, corridos em automóveis e motocicletas que se colidem nos faróis derramados pelas ruas: vermelhos. Pensamentos que morrem em março para nunca alcançar a crueldade de abril. Pouco importa a natureza seja outono ou primavera, equinócio ou solstício, quando te vejo no horizonte e não te alcanço. Um sol que aquece a manhã pouco a pouco não importa depois da noite em que não ouço seu grande bocejo seguido de um “bom dia”. Se eu dissesse que realmente te conhecia bem e (te conhecendo bem) provavelmente viria você rir e dizer que nós éramos de um planeta a parte. Hoje de pé na estrada de um novo mundo do qual você jamais fará parte, apenas te olho deitado e vejo tudo o que se foi e o que não existe mais. E neste momento percebo que estou sozinho por mais que esteja acompanhado. Sozinho e ao mesmo tempo acompanhado no imenso mundo não encontro lugar algum para derramar minhas lágrimas e continuo lembrando como era antes na época em que não precisávamos de grandes espaços. É como fechar os olhos e te ver de novo por detrás das pálpebras sempre com um sorriso e isso de alguma forma me fortalece. Infelizmente não sei se isso é o mesmo para você. O pó, o pólen, a poluição, qualquer coisa que gruda na pele e não me permite lavar a roupa que deixamos para sempre suja. Coisas que não planejamos, coisas que nunca realizamos, nem vamos realizar. Isso tudo parece tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno como as nuvens que formam ovelhas e elefantes. Por que tudo se desfaz? Eu seria feliz por você vir junto e pudesse dividir comigo a dor e alegria de esperar as próximas flores brotarem. De agora em diante desejo te ter sorrindo ao meu lado para sempre em minha memória. Se eu fechar os olhos vou ver você novamente por detrás das minhas pálpebras e não sei se isso me fortalece ou enfraquece quando abrir os olhos e não te ver diante deles. Infelizmente não sei se será o mesmo para você por não estar aqui hoje, porque partiu e deixou uma série de perguntas sem respostas.
o Conto: Auto-explicativo, uma releitura do Remioromen.
a Imagem: Uma rua destruída. Título de uma pintura feita por um sobrevivente da bomba atômica de Hiroshima, Tsutomu Kojiri: http://www.dementia.pt/bomba-atomica-arte-de-sobreviventes/

setembro 20, 2011 às 6:26 pm
Suponho do que se trata o texto, mas pouco importa o contexto, o fato é que ele é bom, muito bom caro esquerdo!
setembro 20, 2011 às 11:59 pm
Caro esquerdo, como diz o professor Marcos, este foi um dos melhores textos que li este ano, não é puxa saquismo, mas sinceridade. Li e reli várias vezes.
De fato, vc tem de estar na literatura e não na filosofia.
setembro 25, 2011 às 1:40 am
Caro Vinicios
Li devagarinho como se fosse um doce, que se prova em pequenas porções … gostei !!!
Um abraço.
novembro 29, 2011 às 10:35 pm
Olá Vini…
texto inteiro, completo… construido com tristes pedaços rompidos.
Abraços