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	<title>Inferno Riscado a Giz</title>
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	<description>A CASA DO POETA TRÁGICO</description>
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		<title>Inferno Riscado a Giz</title>
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		<title>9 de Março</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Sep 2011 23:02:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[9 de Março]]></category>

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		<description><![CDATA[                                                                                                                       “Well I suppose that you could say that we were playing hard to get. Didn&#8217;t understand a thing. But We Could Always Sing”. (Paul McCartney, Here Today)   No meio do caminho que se abre entre a multidão dos olhos molhados, vejo apenas seu brilho em meio à escuridão. Uma estação passa por minha [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=285&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/09/uma-rua-destruc3adda.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-286" title="Uma rua destruída" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/09/uma-rua-destruc3adda.jpg?w=450&#038;h=322" alt="" width="450" height="322" /></a></p>
<p align="right"><em></em> </p>
<p align="right"><em><em>                                                                                                                     “Well I suppose that you could say that we were playing hard to get. D<em>idn&#8217;t understand a thing. But We Could Always Sing”.</em></em></em></p>
<p align="right">(Paul McCartney, <em>Here Today</em>)</p>
<p style="text-align:justify;" align="right"> </p>
<p style="text-align:justify;" align="right">No meio do caminho que se abre entre a multidão dos olhos molhados, vejo apenas seu brilho em meio à escuridão. Uma estação passa por minha pele, mas não sei qual, porque há um inverno permanente dentro de mim. E o tempo não passa por mais que nos consuma em dias longos, noites curtas, corridos em automóveis e motocicletas que se colidem nos faróis derramados pelas ruas: vermelhos. Pensamentos que morrem em março para nunca alcançar a crueldade de abril. Pouco importa a natureza seja outono ou primavera, equinócio ou solstício, quando te vejo no horizonte e não te alcanço. Um sol que aquece a manhã pouco a pouco não importa depois da noite em que não ouço seu grande bocejo seguido de um “bom dia”. Se eu dissesse que realmente te conhecia bem e (te conhecendo bem) provavelmente viria você rir e dizer que nós éramos de um planeta a parte. Hoje de pé na estrada de um novo mundo do qual você jamais fará parte, apenas te olho deitado e vejo tudo o que se foi e o que não existe mais. E neste momento percebo que estou sozinho por mais que esteja acompanhado. Sozinho e ao mesmo tempo acompanhado no imenso mundo não encontro lugar algum para derramar minhas lágrimas e continuo lembrando como era antes na época em que não precisávamos de grandes espaços. É como fechar os olhos e te ver de novo por detrás das pálpebras sempre com um sorriso e isso de alguma forma me fortalece. Infelizmente não sei se isso é o mesmo para você. O pó, o pólen, a poluição, qualquer coisa que gruda na pele e não me permite lavar a roupa que deixamos para sempre suja. Coisas que não planejamos, coisas que nunca realizamos, nem vamos realizar. Isso tudo parece tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno como as nuvens que formam ovelhas e elefantes. Por que tudo se desfaz? Eu seria feliz por você vir junto e pudesse dividir comigo a dor e alegria de esperar as próximas flores brotarem. De agora em diante desejo te ter sorrindo ao meu lado para sempre em minha memória. Se eu fechar os olhos vou ver você novamente por detrás das minhas pálpebras e não sei se isso me fortalece ou enfraquece quando abrir os olhos e não te ver diante deles. Infelizmente não sei se será o mesmo para você por não estar aqui hoje, porque partiu e deixou uma série de perguntas sem respostas.</p>
<p style="text-align:justify;" align="right"> </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">o Conto:</span> Auto-explicativo, uma releitura do Remioromen.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">a Imagem:</span> Uma rua destruída. Título de uma pintura feita por um sobrevivente da bomba atômica de Hiroshima, Tsutomu Kojiri: <a href="http://www.dementia.pt/bomba-atomica-arte-de-sobreviventes/">http://www.dementia.pt/bomba-atomica-arte-de-sobreviventes/</a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/285/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=285&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Cristo de Nagasaki</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Jun 2011 13:52:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[O Cristo de Nagasaki]]></category>

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		<description><![CDATA[Na rua dos beijos sem amor vivia Aínoko, prostituta cristã de quinze anos que recebia pagãos e pecadores à noite para sua sobrevivência e de seu pai inválido; na manhã seguinte pedia perdão aos pés do Cristo pregado na cruz de latão na parede de seu quarto. Das meretrizes de Nagasaki, era das mais comuns, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=277&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/06/gueixa1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-279" title="gueixa" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/06/gueixa1.jpg?w=450&#038;h=701" alt="" width="450" height="701" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Na rua dos beijos sem amor vivia Aínoko, prostituta cristã de quinze anos que recebia pagãos e pecadores à noite para sua sobrevivência e de seu pai inválido; na manhã seguinte pedia perdão aos pés do Cristo pregado na cruz de latão na parede de seu quarto.</p>
<p style="text-align:justify;">Das meretrizes de Nagasaki, era das mais comuns, embora seus olhos parecessem duas gotas de chá, seus cabelos fossem escuros e sua pele clara. A meiguice se desenhava em sua face que ria e fazia rir os freqüentadores de seu quarto e corpo. Quando algum pródigo deixava uma ou duas moedas a mais, ela pagava um cálice de bebida para o prazer de seu pai. Quando algum pragmático perguntava a respeito da cruz, ela confirmava sua fé cristã e dizia que, apesar da profissão, Deus a compreenderia e a receberia no céu.</p>
<p style="text-align:justify;">No entanto, veio a sífilis. De quarentena, ela tomou chás de raízes e ervas para atenuar a febre, fumou ópio para aliviar a dor e deixou de atender para não contagiar ninguém com o mal-dos-cristãos. Embora se guardasse e repousasse, a doença parecia não ceder. Certa vez, Kinoduko, famosa puta pitonisa, condoeu-se diante do estado da menina recomendou a ela um místico sanativo. Aínoko havia contraído a doença de um freguês; só se curaria se a passasse para outro.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim que Kinoduko saiu, Aínoko ajoelhou-se perante a cruz e rezou: “Cristo Senhor que estais no céu. Para sustentar meu pai e a mim, pratico um comércio vergonhoso. Entretanto, sujo apenas a mim mesma, não prejudico ninguém. Por isso, pensava que mesmo morrendo neste estado, poderia ir para o céu. Todavia, se não transmitir esta doença a um freguês, não poderei continuar a exercer esta profissão. Mesmo que morra de fome, me esforçarei para não dormir com ninguém. Caso contrário, causarei a desgraça a um desconhecido, de quem não tenho ódio nem rancor. Eu não passo de uma mulher que não tem ninguém em quem se arrimar, senão Vós!”</p>
<p style="text-align:justify;">Com o tempo e as marcas sifilíticas, Aínoko, por nenhuma insistência, era convencida a deitar-se com quem quer que seja. Seu quarto foi esquecido até a noite em que lá entrou um estrangeiro de rosto queimado de sol, tatuagem no braço, dourado no dente, cabelos compridos, barba ruiva, olhos azuis e cheirando a mar. Embora resmungasse como um bárbaro, suas feições não revelavam um homem nem do Ocidente nem do Oriente.</p>
<p style="text-align:justify;">Aínoko, assustada, disse-lhe: “Não recebo mais ninguém aqui porque sou portadora de terrível enfermidade. Se chegar perto passará ao senhor”.</p>
<p style="text-align:justify;">Sacudindo a cabeça, o homem demonstrou que não sabia japonês. Uma vaga sensação de intimidade dava a ela a impressão de já o conhecer de algum lugar. Por instantes, Aínoko percorreu a cidade em pensamento tentando se recordar de onde o teria visto. Percorreu o parque, o porto, o bairro holandês, foi e voltou ao bairro proibido. Não encontrou nas reminiscências nenhum estrangeiro à imagem do homem diante de si.</p>
<p style="text-align:justify;">O forasteiro, ao contemplá-la, ofereceu, por meio do sinal do dedo indicador e médio, dois dólares. Ela não quis. Então adicionou o dedo anular para oferecer três dólares. Ela não aceitou. O dedo mínimo foi somado aos outros três para ofertar quatro dólares. Ela rejeitou. O polegar confirmou cinco dólares de oferta. Ela repeliu. Os dedos do estrangeiro continuaram a se erguer até que as mãos ao se moverem espalmadas dessem a entender que eram vinte dólares. Ainda sim, ela recusou. O bater irritado dos pés do visitante fez o quarto tremer de tal forma que a cruz pendurada na parede caiu.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela correu para a cruz caída, apanhou-a e ao contemplá-la reconheceu aquele estranho. Apertou a cruz contra o peito e lançou um olhar de espanto para os olhos daquele homem que pareciam vaguear incessantemente sobre seu corpo. Ele se aproximou e sussurrou ao pé do ouvido dela que se deixou enfeitiçar pelas palavras incompreensíveis proferidas por aquela boca ébria de éter. Deixou-se envolver, esquecendo a enfermidade. Como se a embriaguez dele inebriasse seus sentidos, descuidou de sua resolução, deixou-se despir, negligenciando toda a existência.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando Aínoko despertou, já era dia. Levantou-se devagar. De repente, lembrou-se da noite anterior. O quarto ainda cheirava a álcool e mar, mas não havia nenhum vestígio da passagem do tal forasteiro. A mobília arrastada e desalinhada pelo cambaio bêbado estava de volta ao seu lugar. Única peça fora de lugar era a cruz jogada a um canto. Aínoko abriu a janela e foi recolocá-la na parede. Assim que pôs a cruz, viu no espelho, logo abaixo, que não havia mais marcas na pele. Estava curada.</p>
<p style="text-align:justify;">A certeza de que Cristo viera visitá-la na noite anterior a emocionou. Seu coração e seu semblante se encheram de alegria ao sentir que o Redentor por seu quarto passou, levou a sífilis consigo e foi-se sem deixar indícios. Com o olhar envolto em lágrimas, ajoelhou-se e rezou recordando-se dos dedos do Senhor na noite passada; e, para cada dedo, ofereceu uma oração.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/277/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=277&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Agosto de 1945</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 21:42:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Agosto de 1945]]></category>

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		<description><![CDATA[            Mary Poppins abriu o guarda-chuva para voar, mas não voou. Um flash desmanchou em chamas o pano do domo planador que, além de não planar, não a protegeu da chuva-negra caída de um céu sobrevoado por Enola Gay. Os cavalos do carrossel corriam enlouquecidos nas ruas, as tartarugas não vieram do fundo do rio [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=267&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/04/mary_poppins1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-272" title="Mary_poppins" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/04/mary_poppins1.jpg?w=450" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">            Mary Poppins abriu o guarda-chuva para voar, mas não voou. Um flash desmanchou em chamas o pano do domo planador que, além de não planar, não a protegeu da chuva-negra caída de um céu sobrevoado por Enola Gay. Os cavalos do carrossel corriam enlouquecidos nas ruas, as tartarugas não vieram do fundo do rio do palácio do monarca dragão à superfície coberta de pessoas sedentas e mortas. Mary Poppins abriu apenas o guarda-chuva e não uma caixinha de nome Little Boy que a transformou numa estátua de carvão que se decompôs em pó como cinzas de incenso.</p>
<p style="text-align:justify;">            Peter Pan ganhou de sua mãe uma agulha de costura para se proteger do medo ao invés de uma espada para o harakiri. Era um kamikaze incapaz de ir a luta, mas já tomara o saquê imperial que antecede o último vôo à terra do nunca. Peter Pan mandou uma carta de adeus, de gente grande, e voou para a garganta profunda da morte querendo naufragar os piratas, acompanhado de outros garotos perdidos com explosivos nos corpos e agulhas nas mãos.</p>
<p style="text-align:justify;">            Cinderela esfumou-se do desencanto numa rajada de luz. Era a meia-noite do século. Desapareceu como neve na primavera, não deixou vestígios de seu quimono de seda bordado com fios de ouro e prata, nem a faixa de pérola que lhe envolvia a cintura, tampouco suas sapatilhas encantadas. A carruagem de abóbora tornou-se uma lanterna vermelha em que o cocheiro, carbonizado, esperava levá-la ao baile para dançar com o filho do imperador. Cinderela evaporou deixando apenas as marcas de suas pegadas.</p>
<p style="text-align:justify;">            Pollyanna procurou ver o lado bom de tudo, embora, devido à catarata, enxergasse cada vez menos depois que viu o clarão. Tentou sorrir quando lhe sangravam as gengivas, olhar a cara desfigurada no espelho e pentear-se enquanto seus cabelos caíam, não chorar cada vez que lhe saía cacos de vidros da pele, não delirar no momento em que tinha alucinações brancas com pássaros e cisnes. Ela tentou ganhar no jogo do contente, mas já começou derrotada logo que dobrou o primeiro grou de papel. Pollyanna acreditou conseguir dobrar mil para atingir a longevidade e vencer a leucemia; fez novecentos origamis e perdeu a vida cem esperanças.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/267/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=267&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Polaroid da Loucura Imaginária</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Feb 2011 01:39:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Polaroid da Loucura Imaginária]]></category>

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		<description><![CDATA[Bebíamos o sangue de Baco com sua sede de sacrifício. Estávamos num bar longe de Buenos Aires ou Berlim. Era um sábado de carnaval sem fantasia. Curupira fumava a boca de Maria Juana e ria alto, enquanto Bukowsky bebia em silêncio a súcia líquida de Éros. Estavam na mesa do meu lado esquerdo Maria, a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=252&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/02/polaroid-loucura.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-259" title="polaroid-loucura" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2011/02/polaroid-loucura.jpg?w=450&#038;h=675" alt="" width="450" height="675" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Bebíamos o sangue de Baco com sua sede de sacrifício. Estávamos num bar longe de Buenos Aires ou Berlim. Era um sábado de carnaval sem fantasia. Curupira fumava a boca de Maria Juana e ria alto, enquanto Bukowsky bebia em silêncio a súcia líquida de Éros. Estavam na mesa do meu lado esquerdo Maria, a louca, que ainda tomava prozac e eletro-choques, do lado direito Nero que ainda conspirava e respirava ares de soberba. Os dois bebiam comigo a melancolia, a angústia, a felonia e a solidão. Eu era um animal domesticado em solo selvagem saindo a sangrar e beber de volta tudo aquilo que minha carne havia derramado pela cidade dos prazeres. Quando uma guerra intestina matava minhas sete vidas em mim, cantei a paz de Páez e cheirei a bruma na cor âmbar violeta. Vomitei rum nas ruas e nas paredes dos mercados. Saí do bar nos braços de meus amigos de copo e fé sem tomar mais nenhum trago de piedade, apenas mais um copo de cólera com gotas de dor e café. Andava pelas travessas e alamedas de Sodoma e Gomorra com Maria, a louca, do lado esquerdo a me proibir de tomar lexotan e a sugerir um sorvete, enquanto do lado direito Nero trazia cervejas e cigarros. Minha vida já não era mais minha, já não me pertencia, porém eu dizia que estava OK e pensava que aquele amor, afinal de contas, não era de verdade e que as canções de amor mentem tanto. Caminhávamos e cuspíamos nas esquinas e nas vitrines vivas, naquilo que enjoava e enojava. Éramos incapazes de curar as feridas da cidade, estávamos longe de casa e em nossas mentes vazias o diabo fazia oficina literária. Falávamos sem parar, falávamos em suicídio, anti-depressivos, irmãos Karamazov e rock and roll. Comíamos a merda do Mc Donald’s. Nero acreditava, como um dogma, <em>in veritas vino</em> enquanto Maria, a louca, acreditava nos aforismos de <em>Jack Daniel’s </em>e me dava maus conselhos. Eu pensava no corpo com espinhas da imperatriz de Napoleão sendo comido e beijado por Judas ou Calígula e chorava lágrimas de coca-cola cantando para mim mesmo que foi amor. A garganta já estava seca quando paramos noutro bar e encontramos Oscar Wilde na entrada do banheiro tomando coquetel de AZT. Mijamos os três em pé e dentre Nero, Maria, a louca, e eu, Wilde preferiu a mim. Ele veio oferecer-me uma camisa-de-vênus e a leitura <em>de profundis</em> de seus anais poéticos. Recusei com veemência e ele nunca mais me perdoou por isso. Voltei a beber no balcão até cair. Ao cair, ainda vi Maria, a louca, sorrir pra mim e dançar até que o whisky e o fastio fizessem efeito e, por asco ou aborrecimento, depois de dizer que me odiava, abrir os pulsos com uma gilete. Sangrou, sangrou, sangrou e riu como uma louca. Fechei os olhos, minha cabeça girava como moscas ao redor da merda, não vi nada mais. Acordei de ressaca na cama de um hospital, do meu lado esquerdo Wilde, do lado direito Nero. Perguntei por Maria, a louca. O pior já havia passado. Saímos do hospital. A cidade ainda cheirava a vômito e álcool. Sugeri a Nero que queimássemos a cidade para a quarta-feira ter o cheiro de cinzas. Nero riscou um fósforo e o atirou numa poça de urina. Wilde ria. A cidade se incendiava e ardia.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia seguinte, acordei em casa com o telefone. Atendi. Era Hades que me dizia: “Hei! Passei ontem em sua casa para te visitar, mas tu não estavas”.</p>
<p style="text-align:justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">O Conto:</span> esta história sofreu várias metarmofoses. Primeiro surgiu como um  conto do Bukowsky, depois virou música do Fito Páez para, por fim,  voltar ao seu estado original em minhas mãos.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">A Imagem:</span> foto da exposição Verso/Reverso do fotógrafo Clício Barroso, 2010.</p>
<p style="text-align:justify;">&nbsp;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/252/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=252&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>Balé de Borboleta</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Dec 2010 15:48:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Balé de Borboletas]]></category>

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		<description><![CDATA[Francisco não quis ser o patrão nosso de cada dia. Não quis ajudar o pai mercador, salvar a mãe megera, o irmão mercenário. Não quis ficar aqui em Assis. Não quis ser tecelão, quis ser como os lírios do campo que não trabalham nem fiam. Não quis o negócio dos mercadores, quis o ócio das [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=243&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/12/francisco-de-assis-0024.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-244" title="Francisco de Assis 0024" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/12/francisco-de-assis-0024.jpg?w=450" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Francisco não quis ser o patrão nosso de cada dia. Não quis ajudar o pai mercador, salvar a mãe megera, o irmão mercenário. Não quis ficar aqui em Assis. Não quis ser tecelão, quis ser como os lírios do campo que não trabalham nem fiam. Não quis o negócio dos mercadores, quis o ócio das aves que não semeiam nem segam, não ajuntam em  celeiros. Não quis fortuna, o deserdado. Não quis a eqüidade dos bares, o cárcere e as disputas pelo poder da cidade, o domínio da arte do comércio, o nome de Bernardone. Não quis as noites nos jardins da casa de Clara a vê-la ir e voltar à janela como a andorinha vai e vem no verão até a mão humana interromper o protagonista e o ato. Não quis a seda e o linho de patrício do patriarca, preferiu a nudez coberta por um tecido rústico. Não quis construir anjos ou catedrais. Não quis ser gentil-homem, quis ser homem gentil, servir a ser servido. Não quis os mosteiros, quis o campo. Não quis ser sacerdote, quis ser peregrino. Não quis Roma, quis romaria. Não quis o vinho, quis a água. Não quis carregar nem ouro, nem prata na cintura, nem sacola, nem duas túnicas, nem sandálias ou cajado. Não quis um teto por não temer o trovão e a chuva, quis as estrelas. Quis conhecer o vento e o sol e andar pela mão das estações. Quis os passos e os pombos. Quis viver atrás da brisa, assobiando. Quis ouvir o canto de passarinho. Quis conversar com as flores e com os peixes. Quis escutar a água chover debaixo da terra. Quis ler a vida nas folhas caídas das árvores. Quis acreditar em Deus como nas flores, nos montes e no luar. Quis equilibrar seus pés sujos e descalços na ponta quente da pedra para bailar seu balé de borboleta na prece de louva-deus. Quis comungar uma comuna com seus pobres irmãos. Quis redigir regras para seus seguidores, mas essas foram burladas pela bula papal. Quis manter o voto de pobreza, o <em>Poverello</em>. Quis curar suas doenças, descauterizar seu olho, mas não impediu que o ferissem e fizessem estigmas-de-cristo depois de morto e construíssem uma suntuosa Sé sobre seu túmulo para que tudo não terminasse em farsa.</p>
<p style="text-align:justify;">Francisco de Assis nunca quis ser santo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/243/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=243&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>Os Sofrimentos do Jovem Wilhelm</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Oct 2010 13:48:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Os Sofrimentos do jovem Wilhelm]]></category>

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		<description><![CDATA[30 de maio &#160; Caro Werther, inquieta-me o coração receber tuas aflições por meio das cartas que chegam às minhas mãos, cada vez mais trêmulas, a cada chegada do carteiro. Sofro por ti, por mim, por nós ao ler nas tuas palavras que a cada dia morres mais um pouco. No entanto, por mais que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=233&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/10/werther-bondezan-werther-e-charlotte-buff2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-237" title="werther-BONDEZAN-(WERTHER E CHARLOTTE BUFF)2" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/10/werther-bondezan-werther-e-charlotte-buff2.jpg?w=450" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:right;">30 de maio</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;">Caro Werther, inquieta-me o coração receber tuas aflições por meio das cartas que chegam às minhas mãos, cada vez mais trêmulas, a cada chegada do carteiro. Sofro por ti, por mim, por nós ao ler nas tuas palavras que a cada dia morres mais um pouco. No entanto, por mais que me fales em tirar-te a própria vida, é justamente a vida que te tiras dela.</p>
<p style="text-align:justify;">Meu amigo, embora os livros de História digam que a Idade dos Metais ficou na pré-História, te digo que ainda estamos na pré-História e que a Idade dos Metais ainda segue. Vivemos a Idade do Ouro de Tolo, ou melhor, a Idade do Ouro dos Tolos e, por isso, artistas em nosso convívio perecem. Nesta Idade, na nossa idade, os sonhos logo se vão.</p>
<p style="text-align:justify;">Vejo-te sonhando, despertando, nascendo, morrendo e ressuscitando, mas não sei até quando.</p>
<p style="text-align:justify;">Amo-te mais por saber que estás amando, que aprendeste a amar, que descobriste o maior drama dos nossos dias: o amor; e que descobriste, também, o mal do nosso século: a solidão.</p>
<p style="text-align:justify;">Teus sofrimentos, tuas angústias, teus anseios, teus desejos, teus ideais, tua Carlota, provam-me tua face humana entre a desumanidade da humanidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Perdoe-me a liberdade de dizer “tua” Carlota ainda que esta não te pertença. Todavia, pertencerá alguém a alguém? Estou pendente a crer, como tu, que ninguém é de ninguém. E, de vez em quando, encontro-me dizendo que pertenço tão pouco a mim mesmo.</p>
<p style="text-align:justify;">Sinto que estás a meio passo: a meio passo do começo ou a meio passo do fim. Mas não é disso que se trata o amor? E a vida? Este espetáculo hediondo em que há circo, mas falta pão. Sinto que tu queres tirar a vida que a vida tiras de ti.</p>
<p style="text-align:justify;">Como teu amigo, meu amigo, não me cabe julgar tuas atitudes, apenas buscar compreender tuas razões (embora cada vez mais não encontre razões no amor) para quando estiveres caminhando não caminhes sozinho, para quando estiveres caminhando não caminhes em silêncio; porque teu caminho é tua solidão; porque teu caminho é tua salvação; porque teu caminho é o que te manténs vivo; e apenas cabe-me estar ao teu lado.</p>
<p style="text-align:justify;">Em Weimar o final de tarde de outono deve ser tão belo e triste quanto o daqui.</p>
<p style="text-align:justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">O Conto:</span> este foi meu primeiro texto publicado. Saiu na revista Cult de abril de 2004.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">A Imagem:</span> Werther e Charlote Buff de Bondezan</p>
<p style="text-align:justify;">&nbsp;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/233/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=233&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Male di Luna</title>
		<link>http://infernoriscadoagiz.wordpress.com/2010/09/26/male-di-luna/</link>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2010 16:23:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Male di Luna]]></category>

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		<description><![CDATA[Toco tu boca, com um dedo toco el borde de tu boca, la como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entrabiera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=205&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;">
<p style="text-align:right;"><em> </em></p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/09/facultaddehumanidadesse9.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-229" title="facultaddehumanidadesse9" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/09/facultaddehumanidadesse9.jpg?w=450&#038;h=600" alt="" width="450" height="600" /></a></p>
<p style="text-align:right;"><em>Toco tu boca, com um dedo toco el borde de tu boca, la como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entrabiera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja em la cara, uma boca elegida entre todas, com soberana liberdad&#8230;</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>Julio Cortázar</em></p>
<p><strong><em> </em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em> </em>Liquido esse ano no ralo da pia do esgoto ao esquecimento, olho-me frente-a-frente, mano-a-mano, narciso abjeto no espelho das águas no fundo de uma privada. Há dois anos era maravilhoso: bastava apanhar uma folha em branco e minha cabeça zumbia: revia rostos, árvores, casas, personagens lidos.<em> </em>Um acorde ilusório no silêncio não pode contar uma história de ninar para não acordar quem não consegue dormir. É só voltar à página e ver que essa história começou naquele <em>Convento </em>caindo aos pedaços que chamam de faculdade. Você entrou num dos intervalos daquele casulo quando eu ainda estava vestida de mariposa drogada e outras fantasias que anunciavam o fim de minha neurose e tédio: minha vida percorrida pelo álcool, meu fiat 147 vermelho e batido bêbado na esquina Paraguay-Mendoza, meus amigos no bar, minha fama e minha metamorfose que não podiam ser contadas a qualquer pessoa sentada a meu lado nessa cidade onde a solidão corre como motocicleta.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda posso sentir o gosto da cerveja ou o cheiro de berinjela e azeite que invadiam minhas muitas <em>noches mal dormidas </em>a ler<em> </em>a gordura dos ovos de sua prosa. Agora as lembranças são como a bolsa do diabo: por mais que vasculhe só extraio do meu passado fragmentos, recordações ou ficções sem valor: despedidas baratas em maquinarias velhas pelas quais pagamos sempre <em>cuatro pesos con cincuenta centavos</em> após tomarmos <em>una taza de vino</em> para que a separação de nós mesmos não parecesse tão absurda quanto escolher entre passar a noite mastigando vidro ou fugir de casa. Sei que você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança. Não faz diferença. Não importa que a <em>volonté de puissance</em> tenha ficado apenas na vontade. O cigarro apagou e me ensinou a esconder as cinzas sob o tapete. Entre cem histórias mortas, ainda permanecem uma ou duas vivas.</p>
<p style="text-align:justify;">Nas ruas de Rosario ainda me sinto bem, a cidade é uma superfície de possibilidades cobertas por burocracia e um sol esquecido no fundo de um copo de cerveja sobre a mesa. Longe de tudo meu coração pulsa no lugar errado e isso me conforta. Não me reconheço nos rostos das pessoas desconhecidas e já não me importa se as pessoas são boas ou más, se têm suas contas, suas gavetas secretas, suas bibliotecas em desordem, suas prisões de ventre, seus traumas, seus cães, seus trabalhos, seus cansaços, seus roteiros recheados de <em>cafés y media-lunas</em>, jornais e filhos, seus cartões de crédito ou seu dinheiro, porque o que quero dizer não está escrito nos outdoors, não é dito em nenhum talk-show que nós, já amarelados de nostalgia, cometemos atos ingênuos de auto-piedade e morremos nas esquinas há trinta anos, sem palavras em meio à maioria silenciosa, orgulhosa de não ter nada a dizer, vontade de gritar. Ninguém nos viu pendurados na rabeira do sonho de um mundo melhor. Ninguém me viu temer que os dentes cariados do <em>Convento</em> me engolissem, me triturassem, me afogasse na saliva de seus rios onde esculpimos nossa loucura barroca tão fora de época. Ninguém te viu carregando flores secas naquela véspera de natal e eu pensei que as flores de plástico são ideais para a palidez doentia dos matrimônios porque nunca morrem e lembrei a vez em que te larguei naquele parque tão conhecido, tão vivo, perto da trilha das formigas, com a tua orfandade, carregando entre os dedos o cheiro do meu sexo.</p>
<p style="text-align:justify;">Como morri de compaixão ao ver as flores secas que sepultavam um amor tão diferente da crônica de nosso amor louco pela cidade cheia de papéis picados, bêbados, pacotes vermelhos, balões em forma de coração, cartões com declarações amorosas para quem não sabia amar ou ler. Isso tudo poderia ser um epílogo para uma vida e literatura tardia e vulgar, mas você carregava aquele maço de flores horríveis, sabendo que as vísceras das flores cobrem o vínculo, e então compreendi porque te amava, porque, durante essa véspera de natal, diante da televisão, das faces que têm o poder de reconstruir o mundo das impressões, dos amores perfeitos, da paz redonda na mesa posta, da família feliz, por alguns instantes meus órgãos internos voltaram a funcionar. Na sua mão fechada estava meu grito.<span style="color:#ff0000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">O Conto:</span> este é um texto andreense/rosarino. Há tantas mãos nele quanto pessoas nestas duas &#8220;ciudades de pobres corazones&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">A Imagem:</span> Facultad de Humanidades de la Universidad Nacional de Rosario</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/205/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=205&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Estátua de Sal</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Aug 2010 11:21:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estátua de Sal]]></category>

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		<description><![CDATA[Olhar para trás e ver aquilo que deixou: o amigo que não se vê mais, o amor que quedou no passado, o sorriso que não se reconhece, a promessa que não foi cumprida, o para sempre durou até ontem e o eterno não chegará até amanhã. Olhar para trás e ver pessoas que já não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=198&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/08/estatua-de-sal1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-199" title="estátua de sal1" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/08/estatua-de-sal1.jpg?w=450&#038;h=433" alt="" width="450" height="433" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Olhar para trás e ver aquilo que deixou: o amigo que não se vê mais, o amor que quedou no passado, o sorriso que não se reconhece, a promessa que não foi cumprida, o para sempre durou até ontem e o eterno não chegará até amanhã.</p>
<p style="text-align:justify;">Olhar para trás e ver pessoas que já não estão entre nós, mas que continuam a ocupar o mesmo lugar; caminhos percorridos e ter uma noção vaga dos passos e tropeços dados, uma história de vida, um passado.</p>
<p style="text-align:justify;">Olhar para trás e ver que as crianças cresceram, que a idade e a cidade caem, que uma parte de si fica e se perde como uma recordação que inesperadamente se lembra, que os fantasmas rondam e logo se esquece, que nada se dissipa, apenas se transfigura, ver tudo e ao mesmo tempo não ver nada.</p>
<p style="text-align:justify;">Olhar para trás e ver que não é mais aquilo que foi, mas que ainda se identifica, que se usa palavras repetidas para coisas diferentes, que se chora e ri por outros motivos que no fundo são sempre os mesmos, que não amadureceu tanto.</p>
<p style="text-align:justify;">Olhar para trás e ver que se está fugindo de tudo e de todos, que se abandona à própria sorte, que se quer correr para o desconhecido e talvez não se tenha pernas para isso, que já não tem tanto tempo para correr e se esconder.</p>
<p style="text-align:justify;">Olhar para trás e ver, de repente, que se transformou numa estátua de sal.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/198/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=198&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Demônios Domésticos de Medeia</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 01:30:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Demônios Domésticos de Medeia]]></category>

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		<description><![CDATA[Oito horas da manhã, o despertador: “Desperte! Desperte! Desperte!” Medeia acorda e cala o anunciador do dia. Os lençóis, o travesseiro e a cama lhe insinuam: “Fica”. O criado mudo se contrapõe: “Mulher, ergue-te e vivas.” Levanta-se. Espreguiça-se. Vai ao banheiro. Senta-se no vaso sanitário que lhe diz: “Bom dia”. Não responde, a cabeça está [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=186&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/08/medeia1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-189" title="medeia1" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/08/medeia1.jpg?w=450&#038;h=631" alt="" width="450" height="631" /></a><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/08/medeia.jpg"></a></p>
<p style="text-align:justify;">Oito horas da manhã, o despertador: “Desperte! Desperte! Desperte!” Medeia acorda e cala o anunciador do dia. Os lençóis, o travesseiro e a cama lhe insinuam: “Fica”. O criado mudo se contrapõe: “Mulher, ergue-te e vivas.” Levanta-se. Espreguiça-se. Vai ao banheiro. Senta-se no vaso sanitário que lhe diz: “Bom dia”. Não responde, a cabeça está vazia. Gotas d’água do fundo do vaso tocam-lhe as nádegas. Sensação incômoda. Apanha o papel higiênico. Seca-se. Limpa-se. Dá a descarga e ouve do polido sanitário: “Até logo”. Resolve tomar banho e o chuveiro num jato de água fria: “Acorda!” Treme e a água cai quente. Ensaboa-se. Enxágua-se. Fecha o chuveiro que lhe pergunta: “Acordou?” Nada diz. Enxuga-se. Vai pentear os cabelos e o espelho a provoca: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?” Não responde, apenas penteia-se, veste-se e escova os dentes. Quando abre o armário para guardar a escova observa, distraída, remédios e cosméticos, vem do fundo uma voz: “Não adianta tomar mercúrio-cromo para curar as dores de dentro”.</p>
<p style="text-align:justify;">Na sala, o telefone toca. Sai às pressas do banheiro e ao passar pelo corredor ouve dele uma recomendação: “Devagar, não corra!” Chega à sala. Apanha o telefone, já era tarde. Ao atender ouve apenas o som: “Ninguém. Ninguém. Ninguém.” O sofá sugere: “Senta!” Não se senta. Perplexa, olha na estante, o rádio, a TV que estão desligados, porém falam em coro: “Um mundo todo vivo tem a força de um Inferno”. Fixa os olhos num quadro de natureza morta que lhe pede: “Ressuscita-me!” Olha para a outra parede onde se encontra o relógio que lhe diz: “Depressa, a hora está passando! Você está mais próxima do caixão que do berço. Carpe Diem! Carpe Diem! Carpe Diem!”</p>
<p style="text-align:justify;">Medeia refugia-se na cozinha, uma xícara que a espia do aparador sugere: “Que tal um chá para acalmar-se”. Estuda a hipótese, mas dá preferência ao café. Na prateleira, pega a chaleira e coador. Ao abrir a torneira para encher a chaleira, escuta: “Não beberás desta mesma água amanhã”. Coloca a água para ferver. Abre a gaveta que diz: “Você gostaria de uma colher de chá?” A mulher sequer pensa no sentido, talvez irônico, que a gaveta quer lhe dizer e, em silêncio, agarra a colher de sopa. A água ferve. Coloca pó no coador e despeja a fervura. Enquanto o líquido desce, o coador fala: “Veja como algumas coisas passam e outras ficam”. Concorda com essa constatação e, ao olhar os vasos de plantas, as violetas perguntam: “Como é que se faz pra colher a flor da pele sem dor?” Pensa um pouco e, mais uma vez, não sabe responder. Toma o café sem açúcar ou amargor. Na porta da geladeira se lê: JASÃO E AS CRIANÇAS VIRÃO PARA ALMOÇAR. Sem mais, o ruído do pino da panela de pressão traduz os pensamentos dela numa só frase: “O inferno são os outros”.</p>
<p style="text-align:justify;">Meio-dia, o arroz cozinha. Por alguns instantes houve o silêncio de todos os demônios domésticos, porém esta quietude foi quebrada pela panela que diz: “Chama-me Natureza ou Pandora, sou tua mãe e tua inimiga”. Medeia abre-a, coloca sal e cianureto na comida. Põe a mesa e aguarda a chegada dos seus.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">O Conto:</span> provavelmente tenha sido influenciado pela peça Gota d&#8217;Água do Chico Buarque que tornou contemporânea a clássica tragédia da mãe-mulher de Eurípedes.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ff0000;">A Imagem:</span> mais um achado dentro das entranhas do monstro metafísico chamado Google. Esta faz parte do belo trabalho de Abelardo Alves que gentilmente nos cedeu a foto do ensaio da peça Medeia, protagonizada pela atriz Cleide Yaconis. Recomendo a visitação das fotografias de Abelardo em: <a href="http://poetco.tripod.com/">http://poetco.tripod.com/</a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/infernoriscadoagiz.wordpress.com/186/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=186&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Lata D&#8217;Água na Cabeça de Ana Bolena</title>
		<link>http://infernoriscadoagiz.wordpress.com/2010/07/19/lata-dagua-na-cabeca-de-ana-bolena/</link>
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		<pubDate>Mon, 19 Jul 2010 01:26:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Vinícius Canhoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Lata D'Água na Cabeça de Ana Bolena]]></category>

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		<description><![CDATA[Era de terra a estrada em que Ana Bolena fazia o percurso com uma lata d’água na cabeça vinda do rio. Seu oitavo homem, Henrique, havia rompido relações com o pároco local para amasiar-se dela. Como mulher, a rainha do lar ia diariamente buscar água de beber enquanto o marido dedicava-se a quebrar imagens de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=infernoriscadoagiz.wordpress.com&amp;blog=9259994&amp;post=179&amp;subd=infernoriscadoagiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/07/anneboleyn3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-180" title="anneboleyn3" src="http://infernoriscadoagiz.files.wordpress.com/2010/07/anneboleyn3.jpg?w=450" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Era de terra a estrada em que Ana Bolena fazia o percurso com uma lata d’água na cabeça vinda do rio. Seu oitavo homem, Henrique, havia rompido relações com o pároco local para amasiar-se dela.</p>
<p style="text-align:justify;">Como mulher, a rainha do lar ia diariamente buscar água de beber enquanto o marido dedicava-se a quebrar imagens de santos saqueados da paróquia.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Bolena jamais perdia o equilíbrio sobre a cabeça, que mantinha sempre ereta e sem derrubar uma gota da coroa de lata, até mesmo quando tinha de parar no meio do caminho e pagar o pedágio, deitando-se com algum bom cristão.</p>
<p style="text-align:justify;">Com o passar do tempo, além do peso da lata d’água, o peso da consciência oprimia-lhe o crânio; além das gotas de suor, as lágrimas corriam-lhe a face. Ana Bolena cumpria o seu destino de mulher, o de carregar sobre a cabeça e o púbis o peso do mundo dos homens.</p>
<p style="text-align:justify;">O marido, já desconfiado, a seguiu em direção ao rio e a viu voltar equilibrando a lata d’água e parando ao chamado do pedágio. Diante dos olhos de Henrique, Ana Bolena deitou de lado a lata, deitou a si mesma ao lado do caminho, pagou o preço em espécie.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela chegou logo em casa, em silêncio. Ao ouvir o som do machado do marido partindo a lenha, tremeu todo o corpo de tal maneira que a lata virou e a água do rio caiu sobre si. Era um presságio, já sabia o que iria acontecer.</p>
<p style="text-align:justify;">Com o corpo molhado, a mulher se aproximou, estava ao mesmo tempo limpa e suja. Henrique, o oitavo, o primeiro, o último, estava suado e irado, mas por dignidade nada disse, apenas deitou-a de cabeça ereta, olhando para o céu.</p>
<p style="text-align:justify;">Ana Bolena não fechou os olhos.</p>
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